Trump frita publicamente o principal epidemiologista dos EUA

Presidente se exime de responsabilidade pelo avanço da pandemia em 40 estados e desqualifica o infectologista Anthony Fauci, conselheiro de saúde de seis presidentes americanos.

Anthony Fauci, médico conselheiro da Casa Branca, usa máscara ao chegar para dar declarações ao Congresso dos EUA nesta terça-feira (30) Al Drago/Pool via Reuters No afã de se ver livre da pandemia do novo coronavírus, agindo como se ela não representasse um obstáculo à sua reeleição, o presidente Donald Trump lidera um processo de fritura do principal epidemiologista dos EUA, o prestigiado Anthony Fauci.

Transfere para ele a responsabilidade pelo fracasso no controle da doença, questionando publicamente a competência do veterano infectologista, que, aos 79 anos, já trabalhou com cinco de seus antecessores. O descompasso entre Trump e Fauci era evidente nas entrevistas diárias concedidas inicialmente na Casa Branca até que elas foram suspensas.

Agora que a epidemia não dá sinais de arrefecer nem desce do patamar de 60 mil novos casos diários, o presidente e outros integrantes de seu governo desqualificam o maior especialista em doenças infecciosas do país e o jogam para escanteio. É mais um tiro no pé.

A confiança dos americanos em Fauci se mostra inabalável: 67% dos entrevistados na última pesquisa New York Times/Sienna College acreditam e seguem as orientações que ele fornece sobre o coronavírus; apenas 26% confiam nos conselhos de Trump. Os dois não se encontram desde o início de junho.

Fauci foi afastado das reuniões no Salão Oval, não é mais escalado para entrevistas do governo.

“Ele é um cara legal, mas cometeu muitos erros”, justificou Trump.

O presidente culpa Fauci por levá-lo para um caminho contrário ao que dizia sua intuição. Um destes erros que ele credita ao assessor de saúde da Casa Branca foi o de desaconselhar a população ao uso de máscaras no início do surto.

Fauci alega que o fazia porque naquele momento o país sequer dispunha de equipamentos suficientes para o pessoal da área médica. Na gestão da pandemia, fica claro para a maioria dos americanos que as grandes falhas cabem ao presidente.

Sobretudo por ter politizado a doença e acirrado a divisão do país.

Traduza-se por isso a prescrição de hidroxicloroquina para o tratamento da infecção, que ele pregou insistentemente e até usou, e a frequente pressão pela reabertura antecipada do país.

No momento, concentra-se na intimidação para o retorno às aulas. Diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos EUA, o imunologista insiste que o país ainda está de joelhos diante da primeira onda da pandemia.

E tenta atenuar didaticamente os disparates proferidos pelo presidente: vinculou, por exemplo, o aumento dos números da doença à realização de testes e classificou 99% dos casos das infecções como “totalmente inofensivos”. "Estou tentando descobrir onde o presidente conseguiu esse número", ponderou o perplexo Fauci ao jornal “Financial Times”.

"O que eu acho que aconteceu é que alguém lhe disse que a mortalidade geral é de cerca de 1%.

E ele interpretou, portanto, que 99% não são um problema, mas, obviamente, não é esse o caso". Ficou impraticável para Fauci seguir a cartilha de Trump, sob risco de ter de rasgar o vasto currículo.

Resiste como voz dissidente aos ataques que partem da Casa Branca.

E também à campanha de difamação promovida por ativistas de extrema direita, que disseminam a hashtag #FireFauci (Demita Fauci) nas redes sociais com a mesma violência com que o novo coronavírus avança em pelo menos 40 estados americanos.

Mas até quando?
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